Gado argentino tem problemas de rastreabilidade
Famosa nos melhores mercados de carne do mundo, a picanha argentina não tem lá seus melhores padrões de rastreabilidade, apesar de o rebanho argentino ser, pelo menos, três vezes menor do que o do Brasil. Professor e pesquisador do Programa de Agronegócios e Alimentos da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, Hernan Palau, revela à Gazeta Mercantil que, apesar de ser lei no País, a rastreabilidade argentina não funciona como deveria e que há fragilidades no sistema de identificação do gado para os frigoríficos que exportam.
"Não se registram tratamentos nos animais. Sabe-se apenas o número de cada gado, que muitas vezes pode ser falso para "branquear" animais que não tinham identificação. E é isto, teoricamente, que o frigorífico registra na hora de exportar", informa Palau.
A lei Argentina tem uma regulamentação oficial sobre o rastreamento. As resoluções determinam que todo o gado seja identificado para ser engordado, independentemente de seu destino final ser o mercado interno ou externo. "Desta forma, o pecuarista deve pedir as identificações e inserir os dados numa planilha. Entretanto, é muito comum se ouvir que nem todos os animais são vendidos com identificação, há ainda muita informalidade", completa Palau. Ele conta que, em princípio, os animais com identificação tinham um preço diferenciado no mercado, o que não se manteve até o momento.
Dois pesos
Sobre a possibilidade de "vista grossa" da União Européia (UE) na rastreabilidade argentina, Antônio Camardelli , secretário -executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), afirma que possivelmente a Argentina se mostrou com menor risco nas auditorias feitas pela Comissão Européia. No entanto, continua ele, é inevitável não considerar que a pressão da UE sobre o Brasil é maior, pois a Argentina não significa risco para a pecuária européia. "Eles são mais rudes conosco porque somos uma fronteira capaz de suprir e tirar o lugar dos outros. A Irlanda perdeu mercado da Rússia, do Egito e da Argélia, apesar de uma subvenção de ? 500. E ainda assim, ela nunca vai ser competitiva como o Brasil", alfineta. Ele acrescenta que, mesmo com deficiências no Sisbov, a chance de qualquer gado do Brasil ter problemas é próximo de zero, é negligenciado.
Pontos fracos
Sérgio De Zem, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) afirma que a revisão do sistema de rastreabilidade no Brasil precisa considerar alguns pontos importantes para ser factível. "Se você colocar brinco em todos os bezerros quando nascem e colocá-los a pasto, como ocorre na maior parte do rebanho do Brasil, dificilmente eles estarão todos brincados até o momento de abate".
Outra falha que precisa ser resolvida é quanto à documentação dos insumos que são aplicados no rebanho. "Muitas fazendas não têm cálculo de custo de produção e nem controle de notas fiscais de insumos. Como elas vão poder certificar o manejo do gado", questiona De Zem. Para Camardelli, é preciso que o Sisbov seja revisto para ter baixo custo e fácil acesso ao pecuarista. "Se for difícil para a origem implantar, o sistema nasce morto", afirma.
Com informações da Gazeta Mercantil
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